Tentativa de obter foro de senador vitalício fracassou após votação unânime dos deputados paraguaios; vice-presidente assume o cargo enquanto executivos de banco digital são presos.

A Câmara dos Deputados do Paraguai rejeitou por unanimidade, nesta quinta-feira (5), a carta de renúncia apresentada pelo presidente da República, Santiago Peña, e aprovou a continuidade do processo de impeachment contra o chefe do Executivo. A manobra parlamentar visa retirar a prerrogativa constitucional que concederia ao mandatário a condição de senador vitalício com foro privilegiado, mantendo-o vulnerável à Justiça comum após a falência do banco digital ueno, instituição financeira da qual Peña era acionista e que reteve os recursos de cerca de 3 milhões de correntistas. Com a rejeição do pedido de impeachment contra o vice-presidente, Pedro Alliana assume o comando do Palácio dos López.
Colapso do banco digital e rombo previdenciário
A crise institucional eclodiu na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai decretou a liquidação do ueno, entidade do Grupo Vázquez, ao identificar incapacidade financeira para arcar com as próprias obrigações decorrente de empréstimos concedidos a firmas coligadas. A instituição concentrava perto de US$ 850 milhões em depósitos do setor público, abrangendo recursos do Instituto de Previdência Social.
A Procuradoria paraguaia formalizou acusação contra 27 indivíduos associados à instituição financeira, expediu mandados de prisão cumpridos após a entrega de dirigentes da cúpula do banco e determinou a indisponibilidade patrimonial dos envolvidos. Em declarações anteriores, parlamentares de oposição sustentaram que a autoridade monetária acobertou anomalias operacionais da instituição, enquanto Peña sustentou via redes sociais que os responsáveis responderão judicialmente.
Manobra frustrada de blindagem política
Na manhã desta quinta-feira, as lideranças partidárias da Câmara dos Deputados anunciaram adesão integral à instauração do julgamento político. O processo ganhou tração decisiva após Horacio Cartes, líder máximo do Partido Colorado e tutor político de Peña, retirar o respaldo partidário ao governo, postura acompanhada pelo presidente do Congresso, Basilio Nuñez.
Tentando antecipar-se ao desfecho, Peña divulgou vídeo comunicando sua abdicação do mandato sob o argumento de garantir a ordem social e preservar o arranjo democrático. No entanto, deputados de oposição apontaram que a desistência voluntária resguardaria o status de senador vitalício ao presidente cessante, blindando-o de persecuções penais ordinárias. A votação unânime manteve o processo de destituição, prerrogativa garantida à assembleia legislativa do país vizinho.
Contexto Econômico e Institucional
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que o sistema financeiro do país segue operando regularmente, enquanto as instituições absorvem a transferência massiva de contas originárias do ueno. Paralelamente, o Executivo paraguaio chegou a sancionar uma legislação de urgência para acelerar o ressarcimento aos poupadores lesados pela liquidação judicial, medida insuficiente para conter a turbulência política que culminou na transmissão do poder a Pedro Alliana.
Fonte: G1