Substância Retatrutida, ainda em fase experimental e sem registro na Anvisa, é alvo de apreensões recordes na fronteira e gera internações por reações severas.



A Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Receita Federal intensificaram as apreensões de canetas emagrecedoras ilegais na BR-277, no Paraná, após os medicamentos se tornarem o segundo produto mais contrabandeado na fronteira com o Paraguai, atrás apenas de smartphones. A fiscalização interceptou versões da retatrutida, uma substância que ainda está na fase final de testes clínicos em humanos (fase 3), não possui registro sanitário e teve o comércio classificado como crime pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O avanço desse mercado informal preocupa especialistas devido aos graves riscos de toxicidade e reações adversas severas em usuários.
Explosão no volume de apreensões e novas rotas
Até dois anos atrás, as canetas emagrecedoras sequer figuravam na lista das dez maiores apreensões da alfândega de Foz do Iguaçu (PR). Hoje, o volume desses produtos ilegais superou o contrabando tradicional de cigarros. A Receita Federal já contabiliza mais de 158 mil unidades de emagrecedores apreendidos no país, incluindo uma tonelada interceptada em remessas aéreas vindas da China para o Aeroporto de Viracopos (SP) e o fechamento de laboratórios clandestinos no Rio de Janeiro, São Paulo e Maceió.
Os criminosos utilizam métodos complexos de ocultação para burlar as barreiras policiais. As cargas são transportadas:
- Escondidas junto ao corpo dos suspeitos;
- Em fundos falsos de veículos, motores e escapamentos;
- No interior de caminhões-cofre.
Em uma única abordagem na rodovia paranaense, a PRF realizou a maior apreensão da história da corporação para essa classe de produtos, retendo mais de 30 mil unidades de uma só vez.
O perigo da molécula experimental
O principal foco de preocupação médica reside na venda da retatrutida, apontada como a promessa da nova geração para tratamentos de obesidade e diabetes por atuar em três hormônios metabólicos. O laboratório responsável pelo desenvolvimento da molécula esclareceu que o medicamento original ainda não foi lançado no mercado global. As versões comercializadas ilegalmente em farmácias paraguaias em formatos de caneta, ampola ou pó são tentativas de copiar a sequência de aminoácidos, sem qualquer equivalência científica.
A agência reguladora do Paraguai, Dinavisa, emitiu um alerta oficial classificando o produto como “risco grave”. Câmeras escondidas flagraram estabelecimentos estrangeiros vendendo os produtos sem a devida comprovação de procedência. Uma das embalagens analisadas apresentou um código de autenticidade inválido, rejeitado pelo próprio site indicado no rótulo.
Complicações médicas e alterações em laboratório
Pesquisadores que analisaram as amostras confiscadas em laboratório identificaram alterações estruturais nas moléculas dos produtos clonados. Cientistas alertam que falhas no armazenamento exigido para compostos biológicos ou processos inadequados de fabricação causam a degradação da substância, reduzindo o efeito esperado e potencializando a toxicidade no organismo.
Os efeitos clínicos da utilização desses produtos sem controle sanitário são severos. Um usuário que aplicou a substância clandestina por motivações estéticas desenvolveu um quadro agudo de:
- Taquicardia;
- Hipoglicemia severa;
- Tremores, náuseas e vômitos persistentes que exigiram internação hospitalar por vários dias.
A orientação das autoridades médicas e policiais é que os pacientes evitem a compra de medicamentos por canais digitais informais ou intermediários e realizem tratamentos metabólicos apenas com produtos registrados na Anvisa, adquiridos em farmácias regulares e sob estrita prescrição médica.
Fonte: G1, Fantástico