Prontuário médico detalha a assistência prestada à gestante de 26 anos na Santa Casa de Patrocínio, enquanto a família cobra respostas e alega negligência hospitalar.

A Polícia Civil investiga as circunstâncias da morte de Nayara Oliveira Silva, de 26 anos, ocorrida na madrugada da última quarta-feira (12), na Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio. Grávida de oito meses, a jovem deu entrada na unidade com queixas de dores e mal-estar, vindo a falecer após sofrer uma parada cardiorrespiratória. A família da vítima acusa a instituição de negligência médica e relata que a paciente chegou a implorar por uma cirurgia cesárea antes de falecer. O hospital e a Prefeitura de Patrocínio acompanham o caso e instauraram procedimentos de apuração.
Atendimento começou na tarde de 11 de agosto
Segundo os registros médicos, Nayara chegou ao Pronto Atendimento da Santa Casa às 13h42 do dia 11 de agosto, acompanhada. Ela apresentava dores no corpo, mal-estar, náuseas, dor de garganta e dor moderada na parte inferior da barriga.
Naquele momento, a paciente negou falta de ar, sangramento ou perda de líquido pela vagina e informou que o bebê estava se movimentando normalmente.
Às 14h19, passou por avaliação médica. Foram prescritos medicamentos intravenosos e solicitados exames de sangue e urina.
Às 14h53, Nayara foi acomodada para receber a medicação. Um acesso venoso foi colocado no braço direito e foram administrados Complexo B e dipirona.
Por volta das 17h30, ela foi encaminhada para nova avaliação com a equipe de ginecologia e obstetrícia.
Durante a troca de plantão, às 18h, o prontuário registrava que Nayara estava consciente, respirando normalmente, sem febre, falando e caminhando sem auxílio.
Após a análise dos exames, a equipe médica indicou a internação porque havia alterações nos resultados. Naquele momento, porém, a paciente pediu para ir para casa e foi liberada. Segundo os registros, não houve assinatura de termo de responsabilidade porque não foi solicitada formalmente uma alta.
Retorno ao hospital e internação
Às 20h30, Nayara retornou à Santa Casa para realizar a internação. Às 21h, deu entrada no setor de internação.
Às 21h20, recebeu um novo acesso venoso e as medicações prescritas.
Vinte minutos depois, às 21h40, foi encaminhada para uma cardiotocografia, exame utilizado para acompanhar os batimentos cardíacos e as condições do bebê.
Às 22h20, foi realizada nova coleta de sangue, encaminhada ao laboratório.
Às 23h50, Nayara foi encaminhada pela equipe de enfermagem para o setor de maternidade.
Madrugada de 12 de agosto
Às 0h20, a paciente foi recebida na maternidade. O prontuário registrava que ela estava consciente, orientada, caminhando e respirando normalmente, acompanhada pela mãe.
Entre 0h30 e 1h, os sinais vitais foram verificados. A pressão arterial era de 100/70 mmHg, o pulso de 109 batimentos por minuto, a temperatura de 36°C e a saturação de oxigênio de 99%.
Às 1h50, Nayara e a mãe procuraram a enfermagem e relataram que ela estava muito ansiosa. A equipe prestou orientação e administrou medicação para ansiedade.
Às 2h, a acompanhante perguntou sobre a possibilidade de alta, mas foi informada de que seria necessário aguardar os resultados dos exames.
Às 3h, Nayara recebeu novamente a medicação prevista na prescrição.
Por volta das 5h, a mãe pediu o cartão de identificação porque queria deixar o hospital com a filha. A equipe comunicou a situação aos médicos, que informaram que a alta não poderia ser concedida naquele momento.
Queda, perda de consciência e parada cardiorrespiratória
Enquanto uma profissional de enfermagem atendia outro recém-nascido, foi informada de que Nayara havia caído no corredor e gritava de dor.
Às 5h10, ao tentarem colocá-la novamente no leito, ela vomitou, desmaiou e apresentou redução do nível de consciência.
A equipe de enfermagem acionou imediatamente os profissionais médicos.
A médica encontrou Nayara sem resposta aos chamados, sem pulso e com as pupilas dilatadas. Havia secreção espumosa na região da boca e do nariz.
As manobras de ressuscitação cardiopulmonar foram iniciadas imediatamente. Os batimentos cardíacos do bebê também foram avaliados, mas não foram identificados.
Às 5h15, a equipe da UTI foi acionada e um médico intensivista chegou ao local. Segundo o prontuário, Nayara estava inconsciente, sem pulso, com extremidades frias e lábios arroxeados.
Foi identificado um quadro de atividade elétrica sem pulso (AESP).
A paciente foi intubada. Durante o procedimento, os profissionais encontraram grande quantidade de líquido com sangue e restos de alimentos na região da garganta, sendo necessária a aspiração das vias aéreas.
Entre 5h20 e 5h41, foram administradas oito doses de adrenalina.
Durante as tentativas de reanimação, o ritmo cardíaco evoluiu de atividade elétrica sem pulso para assistolia, quando não havia atividade elétrica cardíaca efetiva e não havia indicação de choque.
Às 5h50, depois de 35 minutos de manobras contínuas, sem retorno da circulação espontânea e com persistência da assistolia, a equipe encerrou a reanimação.
Às 5h51, o óbito de Nayara foi declarado.
Família foi comunicada
Às 6h30, os familiares foram oficialmente comunicados sobre a morte.
A equipe médica informou que Nayara havia sofrido uma parada cardiorrespiratória que não respondeu às tentativas de reanimação. Psicologia e Assistência Social foram acionadas para prestar apoio aos familiares.
A família também foi orientada sobre a importância da realização de autópsia pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO) para investigação e confirmação da causa da morte.
Às 6h40, os objetos pessoais da paciente foram entregues ao marido.
Relato da mãe
A mãe de Nayara, Cleusa Oliveira, apresentou uma versão que levanta questionamentos sobre o atendimento.
Segundo ela, a filha já havia procurado a Santa Casa no domingo, dia 9 de agosto, apresentando mal-estar, febre, dor de cabeça e dor de garganta. Conforme o registro policial, recebeu medicação, passou por exames e foi liberada após informar que o bebê estava se movimentando normalmente.
Ainda segundo Cleusa, Nayara continuou passando mal e retornou ao hospital na terça-feira, dia 11.
A mãe relatou que, durante a noite, a filha sentiu fortes dores e teria pedido uma cesárea e um ultrassom. Segundo Cleusa, os pedidos não foram atendidos.
A cardiotocografia realizada durante a internação, por outro lado, registrou os batimentos cardíacos do bebê como normais naquele momento.
Cleusa também contou que a filha começou a vomitar após receber uma medicação por via oral e passou a reclamar de fraqueza e dor no peito.
Durante a madrugada, Nayara teria pedido para deixar o hospital. A mãe solicitou a documentação para a alta, mas, segundo os registros, a equipe médica informou que ela não poderia ser liberada naquele momento.
De acordo com o relato da mãe, Nayara chegou a dizer que queria ser levada para casa.
Pouco depois, enquanto caminhava pelo corredor, a jovem teria sentido uma forte dor abdominal e caído. Ela foi levada novamente para o quarto.
Segundo a médica responsável técnica da Santa Casa, citada no registro policial, a plantonista não poderia atender Nayara naquele momento porque realizava um parto de emergência.
Pouco tempo depois, a paciente sofreu a parada cardiorrespiratória.
A mãe afirmou que segurou a filha durante os momentos finais e questionou se todos os procedimentos necessários foram realizados.
Santa Casa diz que realiza apuração interna
Em posicionamento oficial, a Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio informou que abriu uma apuração interna para esclarecer os fatos e as circunstâncias relacionadas ao atendimento de Nayara.
O hospital afirmou que a análise envolve as áreas responsáveis e que, enquanto a investigação estiver em andamento, não fará novos pronunciamentos públicos sobre o caso, destacando a necessidade de preservar a privacidade, a dignidade e o sigilo das informações da paciente e de seus familiares.
A instituição declarou ainda que, após a conclusão da análise, avaliará, dentro dos limites legais e éticos, a possibilidade de prestar esclarecimentos.
O hospital reafirmou seu compromisso com a transparência, responsabilidade e segurança na assistência aos pacientes.
Prefeitura acompanha o caso
A Prefeitura de Patrocínio, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informou que acompanha o caso e presta o suporte necessário dentro de suas atribuições.
O município esclareceu que a Santa Casa possui gestão própria e independente e não é administrada pela Prefeitura.
Segundo a administração municipal, a Santa Casa é uma unidade de porta aberta para atendimentos de urgência e emergência às gestantes, sem necessidade de encaminhamento pela UPA.
A Prefeitura também informou que Nayara realizava acompanhamento pela rede municipal de saúde e que, diante da morte, estão sendo adotadas as medidas necessárias para a apuração do caso.
Ainda conforme o município, a própria Santa Casa solicitou exames e procedimentos necessários para investigar as possíveis causas da morte, contando com o suporte da rede pública de saúde.
A Prefeitura encerrou a manifestação prestando solidariedade à família e aos amigos de Nayara.
Investigação
O caso foi registrado pela Polícia Militar depois que o companheiro de Nayara, Ronaldo Morais de Souza, procurou a corporação. A investigação também passou a ser acompanhada pela Polícia Civil.
Até a última atualização das informações utilizadas nesta reportagem, não havia indiciamento de profissionais relacionado ao caso.
A morte de Nayara permanece cercada por questionamentos da família, enquanto os procedimentos de investigação e a apuração interna da Santa Casa buscam esclarecer as circunstâncias do atendimento e as causas da parada cardiorrespiratória que levou à morte da jovem e do bebê.
Fonte: informações do g1, com base em prontuários médicos, registro da ocorrência policial e manifestações oficiais da Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio e da Prefeitura de Patrocínio.