Colisão em partida do Tenerife interrompeu batimentos de Jesús de Miguel, levantando alerta sobre síndrome que afeta até atletas sem histórico cardíaco.

O atacante espanhol Jesús de Miguel, de 30 anos, do Tenerife, morreu na manhã desta terça-feira (3) após sofrer uma parada cardíaca provocada por uma forte colisão contra o goleiro adversário durante partida oficial. O jogador chegou a receber manobras de reanimação no gramado e foi internado em estado grave, mas não resistiu à deterioração neurológica causada pela falta prolongada de oxigenação no cérebro. Médicos apontam a commotio cordis como a principal suspeita clínica para o colapso súbito.
O que é a commotio cordis
O termo em latim, que se traduz como “agitação no coração”, designa um fenômeno raro desencadeado por trauma mecânico direto na região torácica. De acordo com diretrizes da American Heart Association, o impacto físico não precisa envolver fratura óssea para desestruturar a atividade elétrica do miocárdio: basta ocorrer em uma janela temporal de milissegundos dentro do ciclo cardíaco (fase vulnerável da repolarização ventricular) para deflagrar arritmia fatal imediata.
Segundo o cardiologista Antonio Carlos Avanza, presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o quadro prescinde de choque violento. “Às vezes você não tem uma fratura, pode ser uma pancada menor, uma joelhada, uma bolada não tão intensa, mas que se pega no momento de uma alteração eletrofisiológica, leva a uma arritmia cardíaca e a uma parada”, pontua o especialista.
O mecanismo se assemelha a episódios registrados em outras modalidades de contato extremo, a exemplo do caso vivido pelo atleta Damar Hamlin, da NFL, em 2023, que sobreviveu após rápida desfibrilação em campo.
Janela de três minutos e dano cerebral
A evolução clínica desfavorável de Jesús de Miguel esteve atrelada à velocidade da reversão do quadro. Em situações de parada cardiorrespiratória, a circulação sanguínea cessa de imediato, interrompendo o fluxo de oxigênio (hipóxia) para órgãos vitais.
Conforme detalha o médico da SBC, a resposta da equipe de resgate precisa ocorrer em até 180 segundos para reduzir as chances de sequelas permanentes:
“O socorro tem que chegar nesse paciente em no máximo três minutos. Senão, nós podemos não conseguir reanimá-lo e levar a uma situação de lesões neurológicas irreversíveis.”
As células do sistema nervoso central apresentam extrema sensibilidade à anóxia. Embora os socorristas tenham restabelecido os batimentos de De Miguel no estádio, a extensão das lesões celulares encefálicas evoluiu durante a madrugada no centro médico, tornando o quadro irreversível.
Hipótese de trauma estrutural (contusio cordis)
Além da interrupção de base puramente elétrica, a equipe médica considera a ocorrência concomitante de contusio cordis. Diferente da comotio que é estritamente arritmogênica, a contusão decorre de dano mecânico e estrutural ao miocárdio, como lacerações, hematomas ou necrose tecidual secundárias ao choque mecânico. A presença de traumatismo estrutural compromete o prognóstico mesmo quando o ritmo elétrico inicial é recuperado.