Morte de grávida de 29 anos e de seu bebê após sucessivas recusas de atendimento de obstetra em Três Marias expõe os riscos da falta de assistência imediata em emergências obstétricas no interior do estado.



Uma suposta omissão de socorro que resultou na morte da gestante Bárbara Luana Fernandes Aleixo, de 29 anos, e de seu bebê, Augusto Manoel, chocou o interior de Minas Gerais e trouxe à tona discussões sobre a segurança e a responsabilidade no atendimento obstétrico de urgência. O caso ocorreu no Hospital São Francisco, em Três Marias (MG) dia 9 de junho de 2026, onde o médico obstetra e diretor clínico da unidade, Higo Moreira Fonseca, foi preso em flagrante pela Polícia Civil após ignorar sete tentativas de contato da equipe médica enquanto a paciente agravava para um quadro de eclâmpsia grave. O episódio, que repercutiu no programa Fantástico, acende um alerta em todo o estado para a importância da triagem correta, do diagnóstico precoce de síndromes hipertensivas na gestação e do cumprimento rigoroso dos regimes de sobreaviso em instituições de saúde.
Sete tentativas de contato e recusa de atendimento
De acordo com o inquérito estruturado pela Polícia Civil, a paciente deu entrada na unidade hospitalar na noite do dia 9 de junho por volta das 20h30, apresentando picos de pressão arterial em 180 por 80 mmHg. Inicialmente classificada com risco laranja (urgente), Bárbara recebeu medicamentos, mas passou a manifestar dores agudas na boca do estômago que irradiavam para o braço, além de episódios de vômito, sintomas clássicos de evolução para eclâmpsia. A equipe da clínica médica realizou os exames laboratoriais e acionou o obstetra de sobreaviso pela primeira vez às 22h08. Via WhatsApp, o especialista avaliou à distância que os sintomas decorriam de “ansiedade” e que o caso não tinha natureza obstétrica, recusando-se a comparecer ao hospital naquele momento.
Durante a madrugada, à medida que a paciente sofria desmaios sucessivos e o quadro clínico se deteriorava, os profissionais plantonistas efetuaram mais quatro tentativas de contato por mensagens e ligações. Por volta das 5h, quando Bárbara precisou ser transferida em estado crítico para a Sala Vermelha, a médica plantonista e uma técnica de enfermagem ligaram novamente pedindo a presença do especialista. Segundo os depoimentos, o obstetra manteve a recusa e, às 5h17, enviou uma mensagem ao grupo do corpo clínico determinando que “gestantes com quadros clínicos, incluindo surtos psicóticos, sem queixas obstétricas” deveriam ser conduzidas estritamente pela clínica médica. O óbito de mãe e filho foi confirmado às 5h30.
Prisão, tentativa de fuga e medidas cautelares
A Polícia Civil efetuou a prisão do médico em sua residência logo após a confirmação das mortes. Conforme o auto de prisão em flagrante, o investigado tentou evadir-se do local engatando marcha à ré em seu veículo ao receber a ordem de parada, sendo interceptado após uma policial civil sacar a arma regulamentar para garantir a segurança da equipe.
O médico obteve liberdade provisória em audiência de custódia mediante o cumprimento de medidas cautelares estritas. Ele está proibido de frequentar o Hospital São Francisco, não pode manter contato com testemunhas ou funcionários da instituição e teve sua atuação médica suspensa cautelarmente na rede pública de saúde, especificamente na área de obstetrícia. A corporação aguarda a conclusão dos laudos do Instituto Médico Legal (IML) para anexar a causa exata das mortes ao inquérito de homicídio com dolo eventual.
Fonte:G1