O sumiço de uma cápsula utilizada em medicina nuclear no país vizinho acende o alerta sobre a fiscalização e o descarte correto de insumos hospitalares de alta periculosidade.



O governo da Argentina emitiu um alerta internacional após constatar o desaparecimento de uma cápsula contendo Césio-137, elemento radioativo de alto risco utilizado na calibração de equipamentos de medicina nuclear. Embora as agências reguladoras do país vizinho classifiquem o risco radiológico imediato como baixo, o episódio gera forte preocupação na comunidade médica e sanitária da América do Sul devido ao potencial de contaminação e ao histórico de acidentes graves envolvendo o manuseio incorreto desse tipo de substância. As autoridades recomendam isolamento total caso o objeto seja avistado.
O risco radiológico e a durabilidade do elemento
O Césio-137 oferece duplo perigo à saúde humana por meio da emissão de partículas beta e raios gama. Enquanto as partículas beta exigem contato direto, ingestão ou inalação para causar danos severos ao organismo, os raios gama possuem um poder de penetração extremamente elevado, sendo capazes de atravessar tecidos e provocar lesões celulares graves mesmo à distância.
Outro fator crítico apontado por especialistas é a longevidade do risco. A meia-vida do Césio-137 é de aproximadamente 30 anos, período necessário para que sua atividade radioativa caia pela metade. Cientificamente, um elemento dessa natureza só deixa de oferecer riscos após cerca de dez meias-vidas. Na prática, isso significa que qualquer material contaminado exige isolamento, monitoramento constante e vigilância rígida por um período estimado em 300 anos antes de ser considerado totalmente inofensivo para a população e para o meio ambiente.
Protocolos de fiscalização e armazenamento seguro
Episódios de extravio como o registrado na Argentina reforçam a necessidade de auditorias constantes em instituições de saúde que operam serviços de diagnóstico por imagem, radioterapia e exames de alta complexidade. No Brasil, o armazenamento, transporte e descarte de fontes radioativas são monitorados de perto por órgãos federais e estaduais, que exigem inventários periódicos e sistemas de segurança física para prevenir perdas, furtos ou descartes inadequados no lixo hospitalar comum.
Relembre o caso
O maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear aconteceu em setembro de 1987, em Goiânia (GO), após dois catadores de recicláveis encontrarem um aparelho de radioterapia abandonado e o levarem para um ferro-velho. Ao desmontar o equipamento, foi descoberta uma cápsula contendo Césio-137, um material altamente radioativo que emitia um pó brilhante, o que chamou a atenção e levou à sua manipulação e distribuição entre várias pessoas.
Sem saber do perigo, moradores tiveram contato direto com a substância, o que provocou uma contaminação em massa. Ao todo, 249 pessoas foram afetadas, dezenas precisaram de internação e quatro morreram em decorrência da radiação. Toneladas de resíduos contaminados foram recolhidas e isoladas em Abadia de Goiás, onde permanecem sob monitoramento até hoje.
Quase quatro décadas depois, o episódio ainda é lembrado como um dos mais graves desastres radiológicos da história e voltou ao debate após novos casos envolvendo o desaparecimento de fontes de Césio-137.
Série da Netflix relembra tragédia e sintomas do Césio-137
O acidente com o Césio-137 em Goiânia, ocorrido em 1987, voltou a ganhar destaque com a minissérie Emergência Radioativa, da Netflix. A produção dramatiza a atuação de médicos, físicos e autoridades que trabalharam para conter o maior desastre radiológico da história fora de uma usina nuclear, além de retratar o impacto humano e social da tragédia.
Na vida real, a exposição ao material radioativo provocou sintomas graves nas vítimas. Nos estágios iniciais, os contaminados apresentaram náuseas, vômitos, tontura, fraqueza e diarreia. Com o avanço da radiação no organismo, surgiram queimaduras na pele, queda de cabelo, infecções e hemorragias.
Nos casos mais severos, houve comprometimento da medula óssea, falência de órgãos e morte. Ao todo, 249 pessoas foram contaminadas, dezenas precisaram de internação e quatro morreram em decorrência da exposição ao Césio-137.
A série também evidencia um dos aspectos mais marcantes do acidente: muitas vítimas tiveram contato com a substância sem saber do risco, atraídas pelo brilho azulado do material no escuro um detalhe que contribuiu para a rápida disseminação da contaminação.
