Em resposta dura à nota do Planalto, parlamentares e influenciadores afirmam que defesa da soberania serve de escudo para tiranos; jornalista perseguido pela justiça faz ameaça direta ao presidente brasileiro.

Palácio do Planalto, Brasília-DF em 29 de maio de 2023. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
A confirmação da captura de Nicolás Maduro, após bombardeios em território venezuelano, deflagrou uma guerra de narrativas imediata entre o governo brasileiro e a oposição. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou a operação militar como uma “afronta gravíssima à soberania”, líderes da oposição celebraram a queda do regime chavista e acusaram o mandatário brasileiro de medo e cumplicidade.
O Posicionamento de Lula
Em comunicado oficial divulgado na plataforma X (antigo Twitter), Lula adotou um tom grave, alertando que o uso da força internacional ultrapassa uma “linha inaceitável”. Sem citar nominalmente os Estados Unidos ou Donald Trump, o presidente focou na defesa do multilateralismo.
“Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”, escreveu Lula.
O presidente comparou a ação aos “piores momentos da interferência na política da América Latina”, afirmando que o precedente ameaça a região como uma “zona de paz” e cobrou uma resposta vigorosa da ONU.
Oposição reage: “Soberania não é escudo para tirano”
A reação da oposição foi agressiva, focando na contradição entre o discurso diplomático do governo e a realidade humanitária da Venezuela.
O deputado Luiz Lima foi um dos mais vocais, afirmando que o comunicado não protege o povo venezuelano, mas sim um ditador.
“Lula não defende soberania. Defende ditadura… Soberania não é escudo para tirano. Multilateralismo não é desculpa para cumplicidade. Ao correr para blindar Maduro, Lula escolhe lado. E escolhe o lado errado da história”, declarou o parlamentar.
Na mesma linha, a deputada Carol De Toni classificou a nota presidencial como um “fiasco” e criticou a insistência em chamar a região de zona de paz.
“Isso não representa o povo brasileiro. Representa a omissão de quem fecha os olhos para a tirania… Falar em soberania enquanto ignora um povo esmagado por um regime autoritário não é diplomacia. É cumplicidade”, afirmou De Toni.
O deputado Marcel van Hattem optou pela ironia para contrastar o sentimento do governo com o da população:
“Se você tá triste e com medo, o Brasil tá feliz. Venezuela livre!”
Allan dos Santos faz ameaça: “Você é o próximo”
O tom mais agressivo partiu do jornalista Allan dos Santos. Residente nos Estados Unidos e perseguido pela justiça brasileira, Allan interpretou a omissão dos nomes de Donald Trump e dos EUA na nota de Lula como um sinal de fraqueza e medo.
Em sua resposta, o influenciador ligou Lula ao Foro de São Paulo e sugeriu que a prisão de Maduro terá consequências diretas para o presidente brasileiro, além de zombar das tentativas de extraditá-lo:
“Obrigado por sequer mencionar o nome de Maduro (medo?), tampouco falar as palavras TRUMP e EUA. Você é o próximo, pois Maduro há de abrir a boca, CHEFE DO FORO DE SÃO PAULO. PS.: não fui e não serei extraditado. Atenciosamente, Allan.”
A troca de declarações evidencia o abismo político em Brasília: para o governo, a captura é um perigoso precedente de intervenção imperialista; para a oposição, é a libertação tardia de um povo e a derrota política da esquerda latino-americana.